Poesias Taoistas

O CAMINHO DO UM, de Célio Pìres
Tentativas poéticas sobre temas de Lao Tse:

MISTÉRIO

Te chamo Deus
por que não sei o teu nome.
Te chamo Tao
por que não sei ir além.
A palavra que quero exata
fugiu pelo portal afora.

Te chamo Grandíssimo
ou mesmo Alá.
Te chamo Mistério…
Como posso te nomear,
se não sei te definir?
Só sei dizer Absoluto.

Como posso te chamar?
Oxalá, Tao, Jah…
Nomes, eu sei, são pretensões
de se apalpar o segredo
de se chegar à essência
que se esconde, se esvai
e escapa das mil definições.

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OPOSTOS COMPLEMENTARES

O que é belo não é só belo.
O que é bom não é apenas bom.
O belo mistura-se ao que é feio.
A fruta amadurece depois apodrece
doando sementes, reciclando vida.

Som e  silêncio se harmonizam,
transformam-se em música.
O antes e o depois se interpõem.
A frente e as costas do homem
complementam-se simetricamente.

O que é belo não é só belo.
O que é bom não é apenas bom.
O todo tem dois tons, dois lados.

Dividir o que é uno é errado.
Exaltar só um lado do todo
um engodo, engano crucial,
que pode esconder do olho o bem,
escolher e relevar a todos o mal.

O sábio não é de forçar a barra,
ele não divide o que é único.
Sabe que no um há sempre dois;
que de dois nascerá o três. E mais:

Não adapta o mundo a si,
tem ciência de que não é seu autor.
Age e nada espera em troca.
Às coisas não se prende ou se enlaça,
por isso seu valor torna-se perene.

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SER JUSTO

Se o governo fosse sábio
e almejasse paz e justiça social
proporcionaria alimento a todos
e assim conteria a ação dos maus.

Quem quer paz e justiça
não esquece todos, elegendo alguns,
não exalta a ambição,
esquecendo o bem comum.

Se o governo fosse sábio,
saberia conter a inveja
e os ladrões não se multiplicariam
como ervas daninhas.

Quem quer um reino justo
não exalta os bens materiais,
tormento d’alma e dos corações,
fermento de todas as ambições.

Se o governo fosse sábio,
buscaria o caminho para a paz
e não teria tantas aflições sociais
que por si só se extinguiriam.

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PARTE DO TODO

O universo não é títere
dos propósitos humanos.
Todas as coisas do mundo
lhe são frágeis e frugais.

Assim são os poderosos,
que do alto do trono
vêem o povo como fósforos,
descartando-os após o uso.

O universo é um fole de forja,
vazio está sempre cheio,
quanto mais é acionado
mais sopra e acalenta a chama.

É difícil ser claro nesse assunto,
palavras só complicam.
O certo é, talvez, nos ver
inseridos no universo e ponto.

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DANDO ESPAÇO

O universo é a mãe de todos
e eterna sua razão de ser.
Não vive pra si
e sim pra dar condições
da vida ser criada,
por isso dura infinitamente.

O sábio segue o exemplo
e abre espaço aos demais.
Ele não busca estar à frente,
mesmo podendo.
Não vivendo para si
seus méritos são irrefutáveis

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BONDADE

O homem que quiser ser bom
deve na água se mirar,
pois ela a tudo favorece
e a todos beneficia sem se poupar.

A água vai ao mais recôndito lugar
onde ninguém vai.
Por isto tem virtude suprema
e da Vida é sinônimo.

A água faz fértil o solo que toca,
assim como o homem bom,
de coração profundo,
beneficia todos a sua volta.

Como a água ele com nada atrita,
a todos envolve e não rivaliza,
cumpre sua missão com retidão,
buscando paz, doando vida.

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SER ÚTIL

Molda-se a argila
com mãos úmidas
e logo o vaso estará feito,
mas é o espaço vazio
que o torna útil.

Constrói-se a casa
com portas e janelas
tijolos e telhas,
mas é o espaço interno
que a torna habitável.

Através da existência
dá-se a utilidade das coisas,
mas como se vê,
o ser dá possibilidades
mas o útil está no vazio.

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DISCRIÇÃO

Os antigos sábios chineses
eram sutis, penetrantes, profundos,
discretos e prudentes.
Reservados e cuidadosos
eles eram instáveis como o gelo
e densos como madeira bruta.
Para compreendê-los…, esforço

Assim agiam para entender,
para ver claro o turbilhão do mundo.
Sabiam que só o repouso
separa a lama da água.

Nunca se davam por satisfeitos,
gradativamente intervinham na realidade.
e seguiam buscando se renovar.

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MAIS FRATERNIDADE

O mandatário prepotente
não beneficia o povo.
Agindo com base na sua “razão”
não propicia ações fraternais.

Se fosse menos imperial,
o povo seria mais fraterno.
Se não valorizasse a usura,
os ladrões desapareceriam.

Valores dos poderosos
não teriam o peso que tem
se o povo estimasse o simples
e abraçasse o incorrupto.

Se pautar pelo oposto destes é a saída:
Reduzir ao máximo o egoísmo
e refrear os desejos
são passos certos e exatos.

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FALTA DE BRILHO

Aparente ser mais alto
e lhe doerá as pontas do pé.
Dê passo maior que a perna
e o tropeço não tardará.

Exalte a si mesmo
e logo perderá crédito.
Auto referencie-se
e o brilho próprio lhe faltará.

Atitudes pequenas assim
não merecem respeito,
revelam superficialidade,
desvelam falsos líderes.

Quem respeita o semelhante
age inversamente
e obtém o respeito de todos.

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SABER DOAR

Palavras são indistintas:
cultas, toscas, profundas…
Não são doces nem amargas,
mas nem todas agradam.
Se verdadeiras machucam
e podem ferir n’alma.

Homens são complexos,
instruídos, amplos, eruditos…,
mas nada os faz melhor.
O mais simples pode até,
mesmo inculto, analfabeto,
mais inteligente se revelar.

Deus é vasto e profundo,
não prejudica ninguém
e a todos vê por igual.
Ao homem, sim, caber escolher:
Se souber doar aos demais
logo cresce e se fortalece.

O homem pode ser do bem,
quanto mais doa mais lhe vem.
O homem pode não ser bom,
quanto mais nega mais lhe falta.
Se muito acumula, se conflita
Se se abre a paz conquista.

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O FLEXÍVEL

Flexibilidade é dom da vida.
O bebê nasce frágil
delicado, flexível.
Ao envelhecer, perde água
torna-se duro, rígido
como velhas árvores,
secas e quebradiças.

Rigidez é irmã da morte
A árvore hirta, velha
não flexiona ao vento
e logo será arrancada
e logo se tornará lenha.

Assim é na vida:
O ser rígido, tenso,
de opiniões arraigadas,
que não aceita novas idéias,
não flexibiliza conceitos
torna-se lenha em vida.

Um exército terá que
flexibilizar suas estratégias
se quiser ganhar a batalha.
Quem não muda na vida
a vida exclui, rejeita.
ou torna-se duro, ditador,
preso, peso em vida.

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MEDO DA MORTE

Teme-se o povo, teme-se a morte,
mas o povo não teme a morte.
Esmagam o povo com impostos,
levando-o à miséria e à fome.
Por ser a vida demasiadamente dura
o povo não teme a morte.

A dilapidação do que é público
trás descontentamento e reação
e nessa hora só quem vive bem,
quem desfruta os bens da vida,
ficará temeroso com a morte.

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OUSAR

Ousadia e morte calçam iguais.
Comedimento e vida são irmãos.

Há quem não tema a morte
e ouse sem cessar.
Há quem prefira a vida
sem ventura, sem perigo,
mas de longo durar.

Quem é o certo neste caso?
Quem lançará veredito?
Nem o venerável sábio
acha fácil concluir,
mas o Tao lhe diz:
A verdade tem malhas largas,
mas nada lhe escapa.

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O MAL GOVERNANTE

O sábio conhece a si próprio,
mas não se exalta disso.
Rejeita o uso da força
e prega sempre o entendimento.
Por isso é aceito e querido.

O mal governante é oposto:
Oprime o povo e o explora,
deixando-o sem pão, sem teto.
Isso motiva a revolta popular
e semeia o desrespeito à lei

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VENCER SEM ARMAS

Quem dera vencer sem armas.
Lutar sem odiar o inimigo.
Conquistar sem disputar.
Liderar, respeitando os liderados.

Quem assim fosse seria capaz
de bem conduzir os homens,
pois não os rivalizaria entre si,
e construiria uma nação fraterna.

Uma nação solidária, sem armas,
sem ódios. Amada pelo seu povo.
Quem dera! Nação fraterna,
respeitada por quem a governa.

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O AMOR É BASE

O amor nos faz corajosos.
Quem luta por amor vence.
A sobriedade nos torna justos.
Quem é justo acaba generoso.
A humildade nos faz sóbrios
e ensina imparcialidade.

O sábio já dizia, sem ser trivial:
A coragem nada vale sem amor
e a generosidade sem a moderação.
Quem assim age deus protege e cuida.

De nada adianta o poder sem humildade.
Quem assim age, do abismo se aproxima.

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O CAMIMNHO DA VIDA

Tao, literalmente, significa o Caminho, entretanto, tem sido traduzido como o Absoluto, a Lei, a Natureza, a Razão Suprema… E eu tive a ousadia de chamá-lo, algumas vezes, de Deus, embora o termo não seja comum na tradição chinesa.
Estas interpretações não são incorretas, pois o próprio Lao Tsé diz que o Tao é assim chamado por não se conhecer o seu nome – “é algo que nasceu antes da existência do céu e da Terra – uma coisa que contém tudo”.
– “Não conheço o seu nome e, por isso, a chamo de Tao (Caminho). Com relutância, chamo-a de Infinito. O Infinito é fugaz, o fugaz se esvai no ar e o evanescente é o reversível”, diz.
Paradoxal, contraditório, simples e complexo – o Tao é assim mesmo –  “o espírito da mudança cósmica, o eterno crescimento que volta sobre si mesmo”. Nas palavras Okakura Kakuso o Tao  “condensa-se e dissolve-se como as nuvens e pode-se chamá-lo de a Grande Transição. Subjetivamente é o humor do universo. O seu absoluto é o relativo”.

Fiz  uma versão pessoal daquelas palavras escritas há mais 2.600 anos  e busquei colocá-las no contexto atual. Não que elas precisassem de atualização, mas senti a necessidade de dissipar névoas que as traduções literais, ao pé da letra, trouxeram para o texto, dificultando o entendimento claro que o mesmo propõe em sua essência. Aqui publico não os 81 textos que fiz, numa versão total, mas os que mais gosto e aos quais fui além, dando-lhes uma versão muito mais pessoa ainda, no formato e linguagem poéticas e onde tomeis muitas liberdades, fonéticas, rítmicas e de interpretaçao. Por isso considero este textos originais, não na essência das mensagens – que é da própria tradição, da filosofia materialista chinesa, mas no formato, nos acréscimos e nos títulos dados.

Do meu entendimento do Livro do Caminho pude constatar que Lao Tsé foi o primeiro a tocar em feridas da humanidade que até hoje doem, além de ter sido este mítico chinês, indiretamente, o pai do pacifismo – ao dizer que não há ganhadores numa guerra; do anarquismo – ao propor o mínimo de intervenção do governo na vida do povo; da ecologia – ao revelar que o a natureza tem seu próprio ritmo e não é títere do homem.

O conjunto do Livro do Caminho é uma fonte inesgotável, seja filosófica, política ou religiosa, uma síntese cristalina de verdades evidentes e que naturalmente fazem pensar, instiga o espírito criador e brada contra as infâmias da vida.

Ao chegar ao texto final dos 81 versos, após alguns anos de trabalho esporádico e prazeroso, me senti revigorado. Foi como se eu tivesse mergulhado num rio caudaloso, de forte corrente e largo e que, para atravessá-lo, tivesse que gastar energia desmedida. Entretanto, constatei, ao chegar ao outro lado, que era outro, revigorado, diferente daquele que mergulhou.
Não haveria mesmo como sair impune dessas radiantes águas de vida. Foi por puro encantamento que nelas mergulhei.

Célio Pires de Araujo – Enviado por Célio Pires de Araujo em 03/05/2006

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